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Depois de tanto falarmos sobre a Nova Inglaterra, acho que é hora de retornarmos um pouco ao nosso Brasil e mostrarmos que temos aqui uma respeitosa tradição em barcos de serviço, que podem nos servir como inspiração para futuros projetos, como falamos no post Os Barcos e Seus Usos.

O que nós queremos com esse novo post é trazer para você um pouco da história das nossas embarcações, e mais especificamente, a história e as características do Cúter Maranhense. Graças ao incrível trabalho do Engenheiro Luiz Phelipe Andrès, diretor do Estaleiro Escola Sítio do Tamancão, no Maranhão, pudemos encontrar na publicação direcionada aos alunos do Estaleiro Escola no Maranhão, uma grande fonte de informações sobre as tradicionais embarcações de pesca dessa região que tanto depende – ainda hoje – da pesca, sobretudo, a artesanal.

Capa do livro escrito por Luiz Phelipe Andrès para os alunos do Estaleiro Escola Sítio do Tamancão (Fonte: Livro Embarcações do Maranhão)
Capa do livro escrito por Luiz Phelipe Andrès para os alunos do Estaleiro Escola Sítio do Tamancão (Fonte: Livro Embarcações do Maranhão)

O Maranhão é uma região no Brasil que depende muito da pesca e que conserva a pesca tradicional em barcos de madeira à vela, como em tantos outros estados litorâneos do Brasil, sobretudo na região nordeste.

O nosso protagonista hoje, então, é o Cúter Maranhense. Essa embarcação, uma das mais tradicionais e ainda populares do Maranhão é essencialmente um veleiro de pesca. Sua predominância é no litoral oeste do estado e consiste em um casco de madeira com uma característica muito marcante: tanto a proa quanto a popa desta embarcação são compostas de anteparas, ou seja, planos transversais retos, e não afilados, bem diferente de outras embarcações.

São embarcações muito simples. Mas é na simplicidade que reside o seu diferencial. Assim como tantos outros modelos de embarcações regionais de pesca, o Cúter tem um arranjo de convés que limita a sua tripulação a habitar apenas a região central, coberta e bastante miúda, conhecida como cabine, ou toldo. É também sob essa cabine em que se situa o motor que é eventualmente instalado a bordo.  À ré da cabine, junto ao leme está o que chamaríamos de cockpit, ou o comando da embarcação, com a escota da vela grande. À vante da cabine, fica a caixa de gelo, onde o pescado é armazenado e seu acesso é feito por uma grande escotilha sobre ele. E ainda mais à vante, bem junto à proa, fica o rancho, local onde é armazenada a comida para consumo da tripulação.

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Planos e ilustrações do Cúter Maranhense (Fonte: Livro Embarcações do Maranhão, Ilustrações: Edson Fogaça)

Essa pequena estrutura de pesca é propelida por uma armação em cúter, ou seja, que remonta à armação adaptada de embarcações estrangeiras, trazidas pelos primeiros exploradores e colonos da história do Maranhão. A armação nada mais é que a distribuição das velas no barco. No Cúter Maranhense essa armação consiste em duas velas: a grande, que é a vela principal, quadrangular latina e com uma verga que forma um ângulo tão acentuado que dá a impressão de ser uma vela triangular; e uma vela de proa, a buja, que é uma vela bem menor e triangular de estai, ou seja, sem o suporte de um mastro. O curioso e belo desse barco são as velas tingidas de cores vibrantes, resultado dos pigmentos naturais que são embebidas as velas tipicamente, tornando essas embarcações destacadas então não somente pela cor dos seus cascos, mas também por suas velas.

O único mastro fica em geral situado no terço mais à vante do casco e tem uma forte inclinação para trás. A armação conta ainda com uma espécie de gurupés, um mastro horizontal, quase uma retranca, que aponta para fora no sentido longitudinal, estendendo o comprimento da embarcação para além do casco. Isso é um artifício bastante comum para aumentar a área vélica da vela de proa e contribuir com o balanço, o equilíbrio do barco quando todas as velas estão içadas.

Agora imagine uma dessas embarcações velejando. Não deve ser nada fácil manejá-las, já que seus cascos profundos acentuam a estabilidade direcional. A quilha, parte do casco, é típica de embarcações bastante tradicionais, integrada num casco redondo e profundo para a proporção do barco. A sua proa reta, formada pelo espelho de proa de que falamos antes, ao contribuir com o volume interno a ser ocupado por carga, também dificulta a navegação, já que oferece ainda mais resistência, principalmente quando totalmente carregado.

A conclusão é que este é um casco que pretende carregar muita carga e por isso, peca na navegabilidade. A espantosa quantidade de velas que essa embarcação carrega para o seu tamanho, é um indicativo da adaptação que os construtores fizeram para garantir que esse barco navegasse melhor. Com mais pano (as velas) esse barco pesado poderia ter um desempenho melhor. Agora que tal o exercício de tentar pensar num barco de lazer com essas proporções?! Como seria? Qual seria sua principal expectativa?! Seria viável? Quem sabe?! Só mesmo propondo um novo conceito… à la Maranhão!

 

Refereências:

  • ANDRÈS, L. P., Embarcações do Maranhão: Recuperação das Técnicas Construtivas Tradicionais, Audichromo Editora, São Paulo, 1998.
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